BC revê para cima projeção para PIB e investimento

Valor Econômico  Editoria: Brasil   Página: A-3


Os investimentos neste ano serão mais fortes do que o inicialmente esperado pelo Banco Central, colaborando para ampliar a capacidade de crescimento da economia, informa o relatório trimestral de inflação divulgado ontem pela instituição. O aumento dos investimentos, que em março foi projetado em 7,1% , agora é calculado em 8,5%.

Valor Econômico  Editoria: Brasil   Página: A-3


Os investimentos neste ano serão mais fortes do que o inicialmente esperado pelo Banco Central, colaborando para ampliar a capacidade de crescimento da economia, informa o relatório trimestral de inflação divulgado ontem pela instituição. O aumento dos investimentos, que em março foi projetado em 7,1% , agora é calculado em 8,5%. Esse é o destaque nas estimativas da autoridade monetária para a evolução do PIB de 2007, cuja expansão foi revista de 4,1% para 4,7%. 


Em 2006, os investimentos já haviam ficado em patamar elevado, de 8,7%, mas o BC acreditava que esse tinha sido apenas um pico, e que iria acontecer uma certa acomodação. Desde abril, porém, começou a se consolidar dentro do BC o entendimento de que a economia passa por mudanças estruturais, que vão consolidar um novo patamar de investimentos na economia. 


O BC decidiu rever para cima suas projeções de investimento diante do bom desempenho no início do ano. O relatório de inflação assinala que a absorção de bens de capital apresentou um “expressivo aumento de 20,1%” no primeiro quadrimestre, comparado com o mesmo período de 2006. A importação de bens de capital cresceu 32%, e a produção de bens de capital, 15,4%. 


Segundo o relatório de inflação do BC, “o crescimento expressivo apresentado pelos investimentos nos primeiros meses de 2007 evidencia a recuperação da renda agrícola, os altos níveis de confiança dos empresários, o patamar reduzido do risco Brasil, o volume de importações de bens de capital, assim como a continuidade do processo de flexibilização da política monetária”. 


A alta dos investimentos é, para o BC, um fato tranquilizador, porque aumenta a capacidade de crescimento da economia, tornando menos prováveis pressões inflacionárias quando a demanda cresce fortemente. Mas não elimina por completo os riscos inflacionários, alerta o diretor de Política Econômica do BC, Mário Mesquita. O relatório de inflação assinala que, apesar da dinâmica favorável dos investimentos, o nível de utilização da capacidade instalada na indústria tem crescido desde o segundo semestre de 2006 e atingiu níveis elevados do ponto de vista histórico. 


“Crescimento da demanda sem investimento me causaria mais preocupações”, disse Mesquita, na apresentação do relatório. “Continuo preocupado, porque sou um banqueiro central, e a sociedade sai ganhando quando banqueiros centrais estão preocupados com a inflação.” 


O BC também aumentou as suas projeções para a expansão das importações, de 14% para 18,8%, o que também contribui para aliviar pressões inflacionárias em um momento de demanda aquecida. Esse foi o argumento apresentado por cinco dos sete diretores do BC que votaram para uma aceleração da redução dos juros básicos, de 0,25 para 0,5 ponto percentual, na reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) de junho. 


O consumo, por outro lado, também está mais forte nas projeções do BC, avançando 6,1%, ante 5,6% anteriormente estimado. O consumo dos governo sobe de 0,9% para 2,9%, em grande parte devido à nova metodologia de cálculo do PIB, que tornou mais acurada a estimativa da presença do governo na economia. 


O BC diz no relatório que a demanda agregada ainda não reflete a totalidade do estímulo monetário injetado na economia, além de estímulos de outra natureza. “Cabe reconhecer que os impulsos fiscais constituem fator adicional de estímulo à demanda doméstica, bem como o fato de que a demanda por exportações brasileiras ter se mostrado maior do que se antecipava”, afirma o relatório. As exportações são agora estimadas em 5,7%, acima dos 4,5% anteriormente projetados pelo BC. 


Do ponto de vista da oferta, o BC estima um crescimento de 7% na agricultura, 4,4% na indústria e 4,3% nos serviços. Os serviços são puxados pelo comércio (6,7%) e intermediação financeira (também 6,7%). A indústria de transformação cresce 4,2% , e a extrativa mineral, 6,2%. 


Estimativa para IPCA abre espaço para corte de juro


As projeções de inflação do Banco Central voltaram a melhorar e estão dentro dos objetivos perseguidos pela política monetária, mostra relatório trimestral de inflação, divulgado ontem pela instituição. A variação do IPCA prevista para 2008 – período com maior peso nas decisões sobre juros – foi reduzida de 4,4% para 4,1% no chamado cenário de referência, que pressupõe a taxa Selic estável em 12% ao ano e uma taxa de câmbio de R$ 1,95. 


A projeção de inflação está confortavelmente dentro da faixa que o Conselho Monetário Nacional (CMN) definiu como alvo para a política monetária de 2007 a 2009, entre 2,5% e 4,5%. Essa é uma indicação de que, em tese, há espaço para novos cortes na taxa básica de juros. 


As projeções divulgadas no relatório de inflação mostram que o BC poderia até cortar os juros básicos em proporção muito próxima à esperada pelo mercado sem comprometer o cumprimento das metas de inflação. Os analistas privados esperam que a Selic chegue a uma média de 10,98% no último trimestre deste ano, e de 10% no último trimestre de 2008. Nesta hipótese, segundo as projeções do BC, a inflação de 2008 ficaria em 4,6%, pouco acima do intervalo perseguido pela política monetária. Houve melhora em relação aos 5% projetados em março passado. 


Para 2007, o BC reduziu de 3,8% para 3,5% a projeção no cenário de referência (que pressupõe juros em 12% ao ano), e de 4% para 3,5% no cenário de mercado. A melhora se deve à valorização da taxa de câmbio e a revisão para baixo nas projeções para os preços administrados (de 4,5% para 3,6% em 2007, e de 5,6% para 4,5% em 2008) 


As projeções de inflação acima contemplam o chamado cenário básico do BC, que assume algumas premissas, como relativa tranqüilidade no cenário internacional. O relatório alerta, porém, que há riscos para a concretização desse cenário, por isso avisa que o afrouxamento monetária será feito com parcimônia. 


O documento diz que a demanda agregada já se expande a taxas robustas e pondera que, embora haja indicações de que as importações e o aumento da capacidade produtiva vão evitar desequilíbrios, ainda há incertezas relevantes. “A expansão do nível de emprego e da renda e o crescimento do crédito continuarão impulsionando a demanda agregada”, diz o relatório. “A esses fatores devem ser acrescidos os efeitos das expansão dos gastos correntes e das transferências governamentais, bem como outros impulsos fiscais.” 


Salário na construção civil pressiona IGP-M


Os reajustes dos salários dos trabalhadores do setor da construção e os produtos agrícolas estão entre os fatores que mais pressionaram a inflação medida pelo Índice Geral de Preços – Mercado (IGP-M ) no mês de junho. O índice, calculado pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), registrou aceleração de 0,26% no mês, depois de leve variação positiva, de 0,04%, em maio. 


“Nessa época do ano é normal haver um aumento do Índice Nacional do Custo da Construção (INCC), por conta da alta da mão-de-obra do setor”, disse Salomão Quadros, responsável pela pesquisa da Fundação Getúlio Vargas. 


A alta da mão-de-obra na construção civil saltou de 0,55% para 2,94% entre maio e junho. Com isso, o INCC subiu de 0,55% para 1,67% no período, respondendo por dois terços da inflação registrada pelo IGP-M no mês. Em São Paulo, por exemplo, a mão-de-obra do setor subiu 5,87% em junho. 




Já a entressafra agrícola e problemas na oferta de leite tiveram reflexos nos preços do atacado e do varejo. Segundo cálculos da fundação, o leite “in natura” subiu 6,64% no atacado neste mês e o produto em embalagem longa vida ficou 11,80% mais caro para o consumidor final. Devido ao aumento do leite e da entressafra de grãos, como a soja, no geral os produtos agrícolas subiram 0,11% em junho. Em maio, esses produtos haviam registrado uma deflação de 2,67% . 


Por outro lado, a safra da cana-de-açúcar atenuou um pouco o avanço dos preços do segmentos agrícola e empurrou para baixo os produtos industriais, que passaram de uma inflação de 0,75%, no mês anterior, para uma queda de preços de 0,03% agora. 


O preço da cana-de-açúcar caiu, em média, 10,17% no atacado, enquanto o álcool etílico hidratado recuou 9,50%. Esses movimentos devem ajudar a manter a tendência de queda do álcool combustível no varejo, que já recuou 4,91% em junho. 


Em julho, segundo Quadros, a inflação deve ficar um pouco maior, em torno de 0,30%. 


Varejo tem 5º mês seguido de alta em SP


Pelo quinto mês consecutivo, o comércio varejista da região metropolitana de São Paulo registrou alta em suas vendas. Em maio, o índice apurado pela Federação do Comércio do Estado de São Paulo (Fecomercio) registrou avanço de 0,3% no faturamento, perante o desempenho de maio de 2006. Segundo a entidade, o varejo já acumula crescimento de 3,7% em suas atividades neste ano. 


Sete dos nove setores avaliados tiveram aumento em suas vendas. O setor de móveis e decorações foi o que conseguiu o melhor resultado mensal do varejo, com 17,7% de crescimento em relação ao mesmo mês do ano passado. Também apresentou expansão de dois dígitos o setor de material de construção, com 13,2% de alta no mesmo período de avaliação. 


Em maio, as concessionárias de veículos não obtiveram um crescimento tão expressivo na comparação com os outros setores varejistas, registrando alta de 3%. Porém, segundo a Fecomercio, é o setor que detém a maior alta acumulada do ano, com 21,7%. Na contramão da tendência, o setor de autopeças e acessórios não só obteve o pior resultado de maio, com queda nas vendas de 22,3% na mesma base de comparação, assim como também é dono da maior baixa no acumulado do ano, com queda de 25% das vendas entre janeiro e maio. 


Além de autopeças e acessórios, apenas o setor de supermercados teve retração em suas vendas em maio, com queda de 0,4%. Todos os demais setores pesquisados pela Fecomercio conseguiram crescimento em suas vendas acima da média geral do varejo. Farmácias e perfumarias tiveram alta 9,5%, lojas de departamentos, 7,8%, vestuário, tecidos e calçados, 5,6%, e lojas de eletrodomésticos e eletroeletrônicos, 1,6%. 


A Fecomercio atribui o crescimento das vendas no varejo dos últimos meses à expansão da oferta de crédito, ao alongamento dos prazos de pagamento, à queda da taxa básica de juros e à estabilidade econômica do país. Mesmo assim, a entidade define o cenário atual como “preocupante” diante do alto índice de desemprego e do crescente nível de endividamento do paulistano.