Inflação de serviços e o papel da apreciação cambial

Valor Econômico  Editoria: Opinião  Página: A-16 


A inflação no Brasil encontra-se em um nível muito próximo do verificado nos países de primeiro mundo. A apreciação cambial exerceu um papel importante em reduzir os preços dos bens. Essa redução foi observada em diversos países, uma vez que a desvalorização do dólar é uma tendência global.

Valor Econômico  Editoria: Opinião  Página: A-16 


A inflação no Brasil encontra-se em um nível muito próximo do verificado nos países de primeiro mundo. A apreciação cambial exerceu um papel importante em reduzir os preços dos bens. Essa redução foi observada em diversos países, uma vez que a desvalorização do dólar é uma tendência global. Além disso, somam-se os efeitos deflacionários das importações da China, país com menor custo de produção unitário. 


Diversos trabalhos científicos abordam a teoria de Balassa Samuelson como uma tentativa de entender o avanço relativo dos preços de serviços em relação a bens. O principal fator de ajuste nesse caso é o salário nominal. 


Segundo a teoria, há um avanço significativo da produtividade de transacionáveis sobre não-transacionáveis. Esse diferencial de produtividade é explicado pela maior participação do fator capital em relação ao trabalho. A economia mundial passou por um avanço expressivo na produtividade da produção de bens de capital, advindo do progresso tecnológico e dos ganhos de escala. Nesse mesmo período não houve um aumento proporcional da produtividade do fator trabalho. 


Uma vez que a produtividade no setor de transacionáveis é superior, há um aumento de salário nominal. Esse incremento pressiona os salários no setor de não-transacionáveis (dado um mesmo nível de produtividade e supondo equalização de salários), o que leva a um aumento de custo relativo entre os setores. 


Uma aplicação mais direta ao Brasil pode ser vista sobre a ótica do salário mínimo. Este incide sobre os dois setores, mas pesa mais no segmento de serviços (maior peso da inflação de não-transacionáveis e mais intensivo em mão-de-obra). Os ganhos da apreciação cambial são limitados para este último. A produtividade total não se alterou nas mesmas proporções da verificada no setor de transacionáveis (vide comportamento em 12 meses da importação de bens de capital). 


A taxa de câmbio nominal exerce dois efeitos nesse modelo: 


1) Aumenta a produtividade do setor de transacionáveis através de aquisição de bens de capital


2) aumenta a concorrência via maior presença de produtos importados


3) em suma, quanto maior a produtividade do setor de bens transacionáveis, maior o aumento de custo relativo, o que gera aumento do preço relativo entre bens e serviços (representados pelos setores transacionáveis x não-transacionáveis). 


De modo geral, acredita-se que uma apreciação cambial tende, em um primeiro momento, a reduzir a inflação geral tanto de transacionáveis quanto não-transacionáveis. Esta última se desacelera devido a um nível geral menor de preços (além da maior influência do IGP nos administrados). No entanto, em uma segunda etapa, os bens não-transacionáveis tendem a subir devido a um aumento de custo relativo. 


Essa teoria pode ser estendida à conjuntura macroeconômica recente brasileira. A apreciação cambial está impactando em um primeiro momento, o nível de preços como um todo (mesmo que com maior intensidade no setor dos transacionáveis) – o IPCA foi reduzido até o patamar de 3% acumulado em 12 meses (2% transacionáveis e 4% não-transacionáveis, em um conceito mais amplo que incluem os administrados). 




Entretanto, devido ao maior crescimento interno (impulsionando a massa de salários) e uma possível recomposição de margens do setor de serviços (para cobrir maiores custos relativos) pode estar ocorrendo uma mudança na tendência. A inflação de serviços está acelerando e, ao mesmo tempo, os preços dos transacionáveis são menos influenciados pela taxa de câmbio. Vale mencionar que os preços das commodities internacionais mantém a trajetória de alta e isso termina por reduzir os efeitos da apreciação. Outra questão de notória relevância é a percepção de que a inflação está cada vez mais globalizada. Choques de oferta que incidem em outros países e cuja dinâmica de formação de preço era determinada apenas no mercado interno, começam a ser influenciados pelas cotações externas: vide recente escalada do preço do leite. O efeito desse aumento ainda é de primeira ordem (apenas no preço do leite), mas espera-se que contamine toda a cadeia, dado basicamente pelo setor de lácteos. Esse comportamento mostra o que se chama de distribuição assimétrica do choque de oferta sobre os setores. Nesse caso, excluir alimentos da inflação com o objetivo de mensurar a tendência comum da inflação está omitindo a informação que há uma pressão inflacionária de caráter permanente (nesse caso o aumento do preço dos commodities milho, soja e trigo e seu impacto sobre sua cadeia final). 


As duas últimas atas do Banco Central se referem à queda dos bens transacionáveis como uma oportunidade de flexibilizar com maior intensidade a política monetária. Na prática, o Banco Central entendeu que o movimento de apreciação cambial tem um elevado componente permanente e, portanto, os bens transacionáveis permitem que a inflação permaneça na meta mesmo com um estímulo maior a atividade econômica (apesar da UCI estar nos níveis máximos históricos). 


O recado do modelo Balassa Samuelson para economia brasileira nesse momento é bem claro – existe a possibilidade da economia brasileira estar no meio do processo de desequilíbrio, onde a apreciação cambial já reduziu em nível os preços dos serviços e, pode de agora em diante, intensificar os custos relativos de produção em favor dos bens transacionáveis. Nesse caso, os preços dos serviços tendem a acelerar tendo como pano de fundo um crescimento expressivo da massa de salários. 


Uma das conclusões é que o Banco Central não deve olhar indiscriminadamente a taxa de câmbio nominal:


1) O repasse tem sido decrescente nos últimos anos (21% 2004 16% 2005 6% 2006 – vide: Desagregação da inflação nos Relatórios Trimestrais do Banco Central);


2) Os preços dos commodities internacionais sobem a uma taxa maior do que a apreciação nominal do câmbio


3) Há um componente comum de maior intensidade entre os preços do mundo que pode intensificar os choques de oferta


4) Há um esgotamento da influência positiva do câmbio sobre os preços dos serviços. A inflação desse setor deverá começar a acelerar pela questão dos custos relativos e o crescimento da massa salarial. 


Carlos Thadeu de Freitas Gomes Filho é economista do Grupo de Conjuntura IE-UFRJ