Jornal do Commercio Editoria: Economia Página: A-2
O Banco Central deverá manter a linha adotada na última reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), quando optou por acelerar o ritmo de redução da taxa básica de juros. Na avaliação unânime de 26 economistas e instituições ouvidos pelo Jornal do Commercio e pela Bloomberg, o BC repetirá o corte de 0,5 ponto percentual na reunião desta quarta-feira, reduzindo a Selic para 11,5% ao ano. Caso seja confirmada, essa será a 17ª queda dos juros básicos, trajetória iniciada em setembro de 2005.
Jornal do Commercio Editoria: Economia Página: A-2
O Banco Central deverá manter a linha adotada na última reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), quando optou por acelerar o ritmo de redução da taxa básica de juros. Na avaliação unânime de 26 economistas e instituições ouvidos pelo Jornal do Commercio e pela Bloomberg, o BC repetirá o corte de 0,5 ponto percentual na reunião desta quarta-feira, reduzindo a Selic para 11,5% ao ano. Caso seja confirmada, essa será a 17ª queda dos juros básicos, trajetória iniciada em setembro de 2005. A mediana projetada pelo mercado para o fechamento da Selic permaneceu em 10,75% para 2007 e 9,75% para 2008, segundo o último Boletim Focus, elaborado semanalmente pelo Banco Central.
Economista-chefe da RC Consultores, Marcel Pereira, diz que o Copom deve manter o corte de 0,5 ponto, uma vez que as condições de mercado hoje são as mesmas da última reunião. A principal justificativa da decisão, segundo a ata do comitê, foi a sinalização de que “a contribuição do setor externo para a consolidação de um cenário benigno para a inflação no horizonte de projeção poderá ser maior do que a inicialmente contemplada”.
Câmbio
O argumento, diz Pereira, foi reforçado desde então, com o dólar ultrapassando a barreira do R$ 1,90. Apesar de a ata ter citado os sinais de demanda aquecida em tom de alerta, o economista acredita que o “estado cambial” continuará pesando mais para o BC. Em sua análise, um único corte de 0,5 ponto ainda não é suficiente para reverter as pressões de apreciação do câmbio sustentadas pelo risco País baixo, acúmulo de reservas alto e forte pressão dos preços das commodities no mercado internacional sobre as exportações do País.
“Não há justificativa para uma nova redução do ritmo de cortes. Se o BC mudar de postura, aumentará muito o nível de incerteza do mercado, já abalado pelas divergências em torno da meta de inflação”, observa Pereira. A meta foi fixada em 4,5% para 2009, acima das previsões do mercado.
O economista-chefe da Fator Corretora, Vladimir Caramaschi, também acredita que seria complexo para o BC voltar atrás depois de ter decidido acelerar a queda dos juros na última reunião. Ele destaca que o placar dessa decisão pode conter informação importante e mostrar a tendência para as outras reuniões. “Se a decisão pelo 0,5 for unânime ou cinco a dois, é provável que haja um novo corte de 0,5 em setembro. Na hipótese de um quatro a três, uma volta aos cortes de 0,25 se torna mais provável”, observa ele, que projeta uma taxa Selic de 10,5% até dezembro.
Dispersão
A LCA Consultores lembra que nas últimas semanas a dispersão de expectativas quanto à trajetória da Selic no segundo semestre aumentou. Alguns analistas passaram a avaliar que o Banco Central poderá retomar o ritmo de corte de 0,25 ponto já na reunião do dia 18. “Essa dispersão de expectativas tem provocado volatilidade mais intensa nos mercados futuros de juros e na mediana das projeções do mercado para a Selic de setembro e outubro”, diz relatório da consultoria.
A consultoria avalia, todavia, que persistem diversos fatores que dão espaço para o BC manter o ritmo de corte da Selic de 0,5 ponto percentual nas próximas três reuniões do Copom. Do ponto de vista internacional, o relatório da consultoria aponta que “vários focos de pressão inflacionária em nível mundial podem ser considerados temporários. (…) Por fim, os núcleos dos índices de preços ao consumidor nas economias centrais estão se acomodando, sugerindo que as pressões inflacionárias registradas na virada do ano estão sendo diluídas”. Assim, a LCA considera reduzido o risco de que seja promovido um aperto monetário mais brusco e intenso nas economias centrais neste segundo semestre. A consultoria mantém a projeção de Selic de 10,25% ao ano no final de 2007.
Já do ponto de vista doméstico, a diluição nos preços externos de alimentos deverá contribuir para reverter o movimento (incipiente) de deterioração de expectativas inflacionárias no mercado doméstico. No último Boletim Focus, elaborado pelo BC, o mercado financeiro elevou a estimativa média para o índice oficial de inflação de 2007 de 3,64% para 3,68%, embora o resultado do IPCA de junho tenha sido tranqüilizador, o que deve ajudar a acomodar as expectativas.
Inflação
A economista da Tendências Consultoria Econômica, Marcela Prada, alerta para sinais de um maior risco inflacionário para frente, em função do aquecimento da atividade, maior disponibilidade de crédito e aumento da massa de rendimentos. O resultado de maio da produção física da indústria brasileira, divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE), veio mais forte do que antecipavam os mercados e os indicadores industriais da Conferaçãoo Nacional da Indústria (CNI) revelaram que a utilização de capacidade instalada na indústria seguiu em elevação, chegando a 82,7% em maio, quando ficou acima do nível agregado máximo registrado em agosto de 2004.
Como contraponto disso, porém, o crescimento da economia interna continua liderado por investimentos e as importações seguem muito dinâmicas, contribuindo para complementar a oferta doméstica e reduzindo o risco de descompasso entre oferta e demada. “O cenário ainda é favorável no momento, com o câmbio favorável e sustentação da demanda pelo aumento das importações. Mas essas preocupações podem se refletir em uma volta dos cortes a 0,25 a partir de setembro”, assinala Marcela.
Argumentos
A economista-chefe da Mellon Global Investment Brasil, Solange Srour, acredita que tanto os votos por 0,5 ponto percentual quanto os votos para 0,25 continuam com seus argumentos reforçados. O primeiro pela situação cambial e o segundo pelo forte nível de atividade. “Certamente será uma decisão dividida, mas o 0,5 deve predominar”, avalia.
Para parte do mercado, a decisão do Conselho Monetário Nacional (CMN) de manter a meta de inflação em 4,5% para 2009 poderia gerar uma reação do Banco Central no sentido de reafirmar sua autoridade em relação à política de controle da inflação. A definição da meta gerou controvérsia entre a posição da Fazenda e do Banco Central, que chegou a dizer que na prática perseguiria um IPCA de 4% ao ano.
“Isso causou desconfiança sobre se o BC será mais leniente com a inflação, mas ainda não se refletiu nas expectativas inflacionárias futuras. Não vejo necessidade de o BC reafirmar sua atitude rígida perante a inflação com um corte menor nessa reunião. Isso pode mudar em setembro, quando estará em foco a inflação de 2008”, diz o economista-chefe do Itaú, Tomás Málaga.
Para Carlos Cintra, economista do Banco Prosper, o estabelecimento da meta de 4,5% pode ter sido um “pecado” do CMN. “São as expectativas de inflação que realmente ancoram a inflação, não os juros. Se o mercado acredita em uma política monetária factível, crê que a inflação vai convergir para a meta, o que vinha acontecendo. Agora, a clareza do caminho a ser adotado pelo BC foi de certa forma abalada e pode mudar as expectativas”, diz Cintra.