Folha de São Paulo Editoria: Dinheiro Página: B-1
O Banco Central promoveu ontem o 17º corte seguido nos juros básicos da economia. A redução, de 0,5 ponto percentual, levou a taxa Selic para 11,5% ao ano. A decisão já era amplamente aguardada por analistas de mercado, e a maior expectativa estava na maneira como a medida seria discutida dentro do Copom (Comitê de Política Monetária do BC).
E, como muitos analistas antecipavam, o corte de 0,5 ponto não foi unânime entre os membros do Copom, formado pelo presidente e pelos diretores do BC.
Folha de São Paulo Editoria: Dinheiro Página: B-1
O Banco Central promoveu ontem o 17º corte seguido nos juros básicos da economia. A redução, de 0,5 ponto percentual, levou a taxa Selic para 11,5% ao ano. A decisão já era amplamente aguardada por analistas de mercado, e a maior expectativa estava na maneira como a medida seria discutida dentro do Copom (Comitê de Política Monetária do BC).
E, como muitos analistas antecipavam, o corte de 0,5 ponto não foi unânime entre os membros do Copom, formado pelo presidente e pelos diretores do BC. Foram quatro votos defendendo essa redução, contra três votos pela queda de 0,25.
Em comunicado divulgado logo após a reunião, o BC evitou dar sinais mais claros sobre os rumos da taxa Selic. “O comitê irá acompanhar a evolução do cenário macroeconômico até sua próxima reunião, para então definir os próximos passos na sua estratégia de política monetária”, dizia o texto.
Segundo pesquisa feita pelo BC na sexta-feira passada com cerca de cem analistas do setor privado, a expectativa do mercado é que o Copom passe a adotar cortes de 0,25 ponto nos juros a partir de seu próximo encontro, marcado para setembro. Confirmada essa projeção, a taxa Selic cairia para 10,75% ao ano até dezembro.
O corte de 0,5 ponto decidido ontem foi o segundo consecutivo. A diferença em relação à reunião anterior do Copom foi o placar. No mês passado, eram cinco os membros do comitê que defendiam o corte de 0,5 ponto. Na ocasião, aqueles que defenderam o corte de 0,25 se justificaram dizendo que a taxa já caíra muito desde setembro de 2005, quando a Selic estava em 19,75% ao ano.
De acordo com esse raciocínio, a economia ainda não teria sentido por completo os efeitos da redução feita até agora, sendo recomendável uma maior cautela para verificar como a inflação reage nos próximos meses antes de dar continuidade aos cortes de 0,5 ponto.
Nas últimas semanas, esse argumento foi reforçado por outros dois fatores. Um deles foi a divulgação de indicadores -como o da produção industrial- que apontam expansão um pouco mais forte da economia. Isso mostraria que não há necessidade urgente de reduzir os juros para estimular o crescimento, abrindo espaço para um maior conservadorismo.
Além disso, a inflação ficou um pouco acima do esperado pelo mercado financeiro nos últimos meses, o que levou o setor privado a revisar suas projeções para este ano. A pesquisa de mercado feita pelo BC na última sexta-feira estimava a alta do IPCA deste ano em 3,70% -no começo do mês passado, estava em 3,50%.
Fatores favoráveis
De qualquer forma, a decisão de ontem mostra que ainda prevalece no BC a idéia de que essas justificativas não são suficientes para frear a queda dos juros diante de um cenário ainda positivo que se espera para a economia brasileira.
Um dos fatores mais favoráveis ao corte maior dos juros é o comportamento do dólar. Na reunião de junho do Copom, a moeda dos EUA era negociada a R$ 1,974. Ontem a cotação estava em R$ 1,861 e não dava sinais de que a trajetória de queda será interrompida tão cedo.
Com o real mais forte, produtos importados ficam mais baratos, aliviando a pressão sobre a inflação. Além disso, a alta registrada por alguns índices de preços nos últimos meses é creditada, principalmente, aos alimentos, que não devem ter reajustes por muito mais tempo -o que não justificaria mudança na política monetária.
Empresários aprovam decisão tomada pelo Copom; sindicatos cobram “ousadia”
O corte de meio ponto percentual na taxa de juros Selic, já esperado pelo mercado financeiro, é positivo, na avaliação da indústria e do comércio. Com a inflação sob controle, os empresários ressaltam que há espaço para mais reduções.
Analistas e economistas não estão tão certos, entretanto, de que esse ritmo vá continuar nas próximas reuniões do Copom porque o placar de ontem foi apertado: foram quatro votos a favor da redução de 0,5 ponto e três para a de de 0,25.
“Essa seqüência de cortes na taxa de juros demonstra que há intenção do governo em abandonar o conservadorismo e, coerente com o que tem dito, ter como meta o percentual de 10% para fechar este ano”, disse Paulo Skaf, presidente da Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo).
Para o Ciesp (centro das indústrias paulistas), o que determinou a diminuição dos juros nesse patamar foi “o deslizamento do câmbio” para abaixo de R$ 1,90. “A contínua valorização do câmbio, ainda que não compense integralmente o aumento de preços de determinados grupos de produto, é fator importante para frear esse crescimento e tem servido a esse fim”, afirmou Boris Tabacof, diretor do centro.
Na avaliação do Iedi (Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial), a redução é “adequada” ao momento. “A decisão segue um padrão no qual o BC procura não surpreender o mercado financeiro. Por outro lado, embora possam ser aventadas possíveis ameaças ao cenário de inflação controlada que se apresenta no Brasil, ainda não há inequívoco sinal de problemas à vista para o horizonte influenciado por mudanças na taxa básica de juros no presente.”
Para a CNI (Confederação Nacional da Indústria), o Copom “acertadamente deu mais um passo para eliminar um dos obstáculos ao desenvolvimento do país: o alto custo de oportunidade do investimento produtivo”. Mas reforçou a necessidade de reformas estruturais para promover o crescimento.
O comércio espera que os juros possam chegar ao menos a 10% ainda neste ano -a taxa está em 11,5%. “O Brasil precisa de investimentos para crescer, e eles só virão com juros em patamar civilizado. Esperamos que o ciclo draconiano do Copom esteja definitivamente encerrado e que as reduções mais vigorosas se mantenham”, disse Abram Szajman, presidente da Fecomercio SP.
Para o mercado financeiro, o placar apertado da decisão eleva as chances de corte de 0,25 ponto a partir de setembro. “Entendo que os dois diretores (que votaram pelo corte de 0,25 ponto na reunião anterior) convenceram um terceiro. Se o Copom fala que vai avaliar o cenário para ver se muda, ele já se prepara para isso. Nos últimos 45 dias houve uma mudança para pior na inflação, na atividade econômica e no preço das commodities”, disse José Francisco Gonçalves, do Fator.
Já as centrais sindicais pediram mais ousadia. “O corte não condiz com a pressa que os trabalhadores desempregados têm de conseguir empregos e a que os trabalhadores empregados têm de conquistar reajustes salariais mais altos”, afirmou João Carlos Gonçalves, o Juruna, secretário-geral da Força Sindical.
Em alusão irônica ao Pan, a CUT afirmou que o Brasil conquistou mais uma medalha de ouro. “Ninguém tira sua condição de campeão pan-americano dos juros reais altos. Muito menos essa pequenina redução anunciada hoje, de 0,5 ponto.”