Gazeta Mercantil Editoria: Finanças Página: B-2
Apesar do custo maior do que o das emissões de renda fixa, riscos para as empresas é menor. O papel das ações como fonte de financiamento para investimentos feitos pelas empresas cresceu significativamente nos primeiros três meses deste ano, passando a representar 10,8% do total de recursos destinados a este fim, ante 6,9% no final de 2006.
Gazeta Mercantil Editoria: Finanças Página: B-2
Apesar do custo maior do que o das emissões de renda fixa, riscos para as empresas é menor. O papel das ações como fonte de financiamento para investimentos feitos pelas empresas cresceu significativamente nos primeiros três meses deste ano, passando a representar 10,8% do total de recursos destinados a este fim, ante 6,9% no final de 2006. O primeiro lugar é do autofinanciamento (reinvestimento de lucros retidos e aporte dos sócios), com 66,5%, e o segundo, de papéis de renda fixa, como debêntures e notas promissórias, com uma fatia de 17%. Os financiamentos bancários (incluindo os do BNDES), com 5,7%, aparecem em último lugar entre as alternativas. Em 2003 o quadro era bem diferente: 91,1% dos investimentos eram realizados por autofinanciamento, 4,3% por crédito bancário, 3,8% por títulos de renda fixa e apenas 0,8% por emissões de ações.
As conclusões são de um estudo da Câmara de Custódia e Liquidação (Cetip), obtido com exclusividade por este jornal. Os percentuais são calculados sobre a formação bruta de capital fixo, cujo último dado é de 31 de março. Jorge Sant’Anna, superintendente de produtos da Cetip, explica porém que os dados do primeiro trimestre estão distorcidos uma vez que o peso maior dos papéis de renda fixa é das debêntures, que nos primeiros três meses do ano registraram apenas R$ 500 milhões. Considerando a situação no final do ano passado, a participação das emissões de renda fixa passa a 25,1% enquanto a das ações é de 6,9%.
No mundo, a situação é semelhante: o autofinanciamento também é a primeira opção das empresas; as emissões de dívida vêm em segundo lugar, com 38% em média; e as emissões de ações ficam em último, com 6,6%; apenas os financiamentos bancários, ao contrário do Brasil, é que não têm relevância alguma quando se trata de investimentos de longo prazo.
Nos Estados Unidos, por exemplo, onde o valor de mercado das empresas listadas em bolsa somava US$ 22 trilhões em 31 de março último, a participação das ações como fonte de recursos para investimentos é de apenas 3% – menor do que no Brasil (veja quadro nesta página). Os dados são do Banco Mundial, relativos a 2002 – a pesquisa é realizada a cada cinco anos mas o padrão é relativamente estável, segundo Sant’Anna.
Custos e riscos
“A capacidade de autofinanciamento das empresas brasileiras já está próxima ao seu limite”, afirma Sant’Anna. Para ele, é preciso incentivar ainda mais o uso da emissão de papéis de renda fixa para financiamentos de projetos e expansão, uma vez que seu custo é mais baixo do que o de uma emissão de ações, e os prazos, mais longos do que os disponíveis nos bancos.
“Além de ter que arcar com custos da operação (que em muitos casos inviabilizam o acesso de empresas pequenas e médias), há custos indiretos, como manutenção de uma estrutura de governança corporativa e de prestação de informações ao mercado, além dos pagamentos de dividendos aos acionistas. Além disso, ele aponta ainda fatores psicológicos: “quando uma empresa decide fazer uma emissão secundária de ações, sinaliza ao mercado que os preços estão elevados”, diz.
Mas a colocação de debêntures, nota promissórias ou fundo de recebíveis também têm custos altos como a taxa de registro que supera os R$ 82 mil e inviabilizam emissões abaixo de R$ 50 milhões. Por esta razão, a Cetip e outras entidades do mercado de capitais discutem novas regras que permitam emissões privadas, a custos mais baixos, a exemplo do que já existe nos Estados Unidos.
Segundo o principal executivo de um dos maiores bancos de investimento estrangeiros com presença no Brasil, que preferiu não se identificar, de fato o custo de um lançamento de ações é mais alto do que o de um papel de renda fixa. “Mas a vantagem para a empresa é que os riscos são menores”.
Ele explica que para aceitar estar “no final da fila” entre os que receberão alguma coisa em caso de quebra da empresa, os acionistas minoritários exigem um “prêmio” alto. Em compensação, a empresa pode não pagar dividendos em períodos de vacas magras. Já quando toma dinheiro emprestado a juros, precisa pagá-los em qualquer situação – esteja bem ou não num determinado exercício.