Antonio Oliveira Santos
Presidente da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo
Dois países geograficamente distantes e culturalmente distintos, como Índia e Brasil, têm, nas circunstâncias da atual conjuntura mundial, um ponto em comum: a valorização de suas moedas nacionais frente ao dólar.
Antonio Oliveira Santos
Presidente da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo
Dois países geograficamente distantes e culturalmente distintos, como Índia e Brasil, têm, nas circunstâncias da atual conjuntura mundial, um ponto em comum: a valorização de suas moedas nacionais frente ao dólar. Por tabela, através do mecanismo da arbitragem, valorizam-se também em relação a outras moedas como, por exemplo, o euro.
No caso da Índia, a taxa de câmbio que havia sido na primeira metade da década passada de Rs$31,37:US$1 houve uma desvalorização contínua até 2002/2003 que resultou na relação Rs$48,40:US$1. A partir daí, a rúpia recupera seu valor vis-à-vis do dólar e a taxa paira hoje sobre a marca simbólica de 40Rs$:US$1. Em nosso caso, para não remontar à maxidesvalorização que aconteceu logo após reeleição de Fernando Henrique Cardoso, basta lembrar que as incertezas de rumos durante a campanha presidencial de 2002 levaram a taxa de câmbio a beliscar os 4 reais por dólar; porque os rumos da política econômica não foram drasticamente modificados, a partir daí a relação evoluiu na descendente e rompeu, pode-se dizer também, a marca simbólica dos 2R$:US$1.
A principal razão da valorização das duas moedas, a rúpia e o real, tem sido o efeito combinado do influxo de moeda estrangeira, particularmente o dólar e vultosos saldos no balanço de comércio, sejam estes fruto da exportação de serviços da área da informática (caso da Índia) ou do “boom” proporcionado pela demanda mundial por commodities (caso do Brasil).
A entrada de capitais assume diferentes formas desde o investimento direto e capital especulativo até a remessa de emigrantes; para a Índia, a remessa feita por expatriados têm considerável importância, assim como as remessas dos dekasséguis e outros, para o Brasil, também não são desprezíveis.
A valorização das moedas nacionais, ao tornar as importações mais baratas, impulsiona a compra no exterior de bens de capital de última geração e significa aumento de produtividade, ainda que à custa de postos de emprego. Por outra parte, produtos estrangeiros de consumo final expressos, em yuans ou reais, contribuem para frear a alta interna dos preços.
Contudo, se a valorização das taxas de câmbio têm efeitos benéficos de um lado, não deixa, por outro, de criar um dilema de política comercial. Construídos a partir de uma estrutura de custos, os preços nacionais, quando referidos em moeda estrangeira, tornam-se caros. As exportações deixam de ser competitivas e setores importantes da economia sofrem abalos.
Colocando o foco exclusivamente sobre o Brasil, não há dúvida que a valorização do real compromete as indústrias de calçados, têxtil e brinquedos, sofrendo internamente a concorrência da China, com sua estrutura de custos assentada em magros salários. E nossos produtos da indústria eletro-eletrônica perdem capacidade de competir em mercados como o argentino até há pouco tempo quase cativo, devido à valorização cambial do real.
No caso da valorização cambial, o que se deve evitar é que países como a Índia e o Brasil sejam presas do chamado “mal holandês”. A valorização cambial ocorrida na Holanda, face ao ingresso maciço de capitais externos, após a descoberta de volumosos depósitos de gás natural, resultou em sensível prejuízo para as atividades industriais.
Publicado no Jornal do Brasil de 28/07/2007.