Omissão na previdência

Épreciso atenção redobrada na hora de fazer o plano de previdência privada. Levantamento feito pelo GLOBO em 12 agências bancárias do Rio constatou que em nove delas (75% dos casos) os gerentes não informam, num primeiro momento, que é possível aplicar parte da contribuição em ações, ou renda variável, como esse investimento é chamado pelo mercado. Assim, a maioria dos clientes é levada a aplicar integralmente em renda fixa, cuja rentabilidade tem se mostrado menor que à da variável, apesar dos solavancos da Bolsa de valores de São Paulo (Bovespa) nas últimas semanas.

Épreciso atenção redobrada na hora de fazer o plano de previdência privada. Levantamento feito pelo GLOBO em 12 agências bancárias do Rio constatou que em nove delas (75% dos casos) os gerentes não informam, num primeiro momento, que é possível aplicar parte da contribuição em ações, ou renda variável, como esse investimento é chamado pelo mercado. Assim, a maioria dos clientes é levada a aplicar integralmente em renda fixa, cuja rentabilidade tem se mostrado menor que à da variável, apesar dos solavancos da Bolsa de valores de São Paulo (Bovespa) nas últimas semanas.


De acordo com a Federação Nacional da Previdência Privada e Vida (FenaPrevi) e a Superintendência de Seguros Privados (Susep), as empresas oferecem três faixas de risco. Do total investido em previdência, os clientes podem optar pela mais conservadora, que destina até 15% da aplicação em ações; a intermediária, que tem como teto 35%; e a mais agressiva, cujo limite é 49%. Mesmo com a volatilidade da Bolsa, a rentabilidade dos fundos de aposentadoria que investem em renda variável chega a 12,78% no acumulado deste ano, contra um ganho de 7% dos planos com aplicação só em renda fixa, segundo a Associação Nacional dos Bancos de Investimento (Anbid).


Associação vê ganho maior de instituições


Apesar da falta de informação nas agências, a previdência privada que tem parte dos recursos investida em ações não pára de crescer. Em maio, a renda variável estava presente em 25% das aplicações. Há um ano atrás, a fatia era de apenas 5%, diz a FenaPrevi. Segundo especialistas, o crescimento ganhou impulso com a queda na taxa básica de juros, a Selic, hoje em 11,50% ao ano, que tem tornado a renda fixa cada vez menos atrativa.


A pesquisa, feita nas duas últimas semanas, revelou ainda que todos os bancos omitiram informações sobre a cobrança de tarifas. Já o desconto tributário sobre os diferentes planos de previdência, que indica o valor a ser resgatado no futuro, foi tratado como “simples detalhe” por alguns gerentes. Com a falta de informação para o cliente, cerca de 60% dos contratos do setor são cancelados após dois anos.


Miguel Ribeiro de Oliveira, vice-presidente da Associação Nacional dos Executivos de Finanças (Anefac), destaca a falta de informação sobre a aplicação em ações. Ele diz que os gerentes já partem do princípio de que o investidor é conservador e não vai perguntar sobre a opção pelo plano com renda variável:


— Para o investidor, aplicar no mercado de capitais é arriscado, apesar de as ações registrarem valorização a longo prazo. Além disso, há uma maior flexibilidade para o banco reaplicar em outros fundos quando o dinheiro está investido em renda fixa, gerando assim maiores ganhos para as instituições financeiras.


Segundo Luiz Roberto Latini, sócio-diretor da G5 Solution, os gerentes não informam corretamente os clientes porque não conhecem todos os pontos dos planos de previdência.


— Os gerentes têm de vender vários tipos de produtos por dia, o que torna mais difícil a especialização. Mas a grande responsabilidade é de quem compra o plano de previdência. O consumidor deve perguntar e tirar todas as dúvidas antes de assinar — explica Latini.


Antes de a nutricionista Irene Santos e a publicitária Juliana Valentim escolherem o plano de previdência privada, há alguns anos, elas decidiram pesquisar as principais opções.


— Os gerentes não sabem informar. Por isso, fizemos aplicação só em renda fixa porque aplicar em ação demanda confiança. Estamos pensando em investir parte da previdência em ações. Mas vamos começar com cautela — diz Juliana.


Advogados alertam para taxas e IR


Segundo advogados, o cliente deve ficar atento à “taxa de carregamento” (encargo cobrado pela instituição) — o percentual oscila de 2% a 5% sobre o valor de cada depósito. E a taxa de administração? Segundo especialistas, o consumidor paga, em média, 2% ao ano sobre todo o patrimônio líquido do fundo. Outro detalhe “esquecido” por gerentes é o período de carência. A legislação prevê que, só após 60 dias, o cliente pode sacar o dinheiro dos planos ou migrar para fundos mais conservadores ou agressivos.


Em todas as 12 agências pesquisadas, os gerentes também não levaram em conta, na hora de calcular o retorno mensal do cliente, a escolha entre os dois tipos de plano existentes no mercado. E as diferenças são grandes. O PGBL (Plano Gerador de Benefício Livre) é indicado para quem declara Imposto de Renda no formulário completo. Já o VGBL (Vida Gerador de Benefício Livre) é voltado para quem é isento ou declara pelo modelo simplificado.


Os bancos pesquisados foram Itaú, Real, Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal, Bradesco, Santander, HSBC e Unibanco. Osvaldo Nascimento, diretor-executivo da Itaú Seguros Previdência e Capitalização, diz que pode haver falhas no atendimento dos gerentes. Mas qualquer erro de informação será corrigido, depois, por consultores. Marcelo Teixeira, diretor-superintendente de Seguros do HSBC, afirma que o banco também tem consultores que analisam os contratos. Já a Caixa acredita que o episódio foi isolado. O BB e o Real, por sua vez, dizem que fazem treinamento constante dos funcionários.