Folha de São Paulo Editoria: Dinheiro Página: B-3
A preocupação com a possibilidade de a expansão da economia levar a um aumento da inflação foi o principal fator que levou o Banco Central a interromper, na semana passada, o processo de queda dos juros, que já durava dois anos.
Folha de São Paulo Editoria: Dinheiro Página: B-3
A preocupação com a possibilidade de a expansão da economia levar a um aumento da inflação foi o principal fator que levou o Banco Central a interromper, na semana passada, o processo de queda dos juros, que já durava dois anos. Embora o assunto já tivesse sido abordado várias vezes pelos diretores do BC, desta vez houve unanimidade sobre a necessidade de maior “prudência” nos cortes da taxa Selic.
Ontem, foi divulgada a ata da última reunião do Copom (Comitê de Política Monetária do BC), que decidiu pela manutenção dos juros em 11,25%. Sem grandes mudanças em relação a documentos de reuniões anteriores, o texto enfatiza a preocupação com o nível de atividade da economia.
A preocupação do BC é que, num ambiente em que o consumo esteja crescendo de forma muito acelerada, as empresas não sejam capazes de produzir o suficiente para atender todas as encomendas que recebem. Nesse caso, poderiam optar por reajustar seus preços para aproveitar a maior procura por seus produtos, o que alimentaria a inflação.
Essa foi a justificativa apresentada pelo BC para dar uma “pausa” na redução dos juros, até que fique mais claro como a economia vai responder aos cortes efetuados até agora -queda de 8,5 pontos desde setembro de 2005. Analistas discutem, agora, quanto tempo essa pausa vai levar.
“Se é para esperar os efeitos do relaxamento [da política monetária] sobre a demanda e a inflação, não parece razoável voltar a reduzir os juros antes que fique claro que não haverá demanda sem atendimento e pressão inflacionária. A próxima reunião é no início de dezembro, o que parece pouco tempo para tal tarefa. Assim, a Selic deve ficar em 11,25% até 16 de abril de 2008”, avalia José Francisco de Lima Gonçalves, economista-chefe do banco Fator, referindo-se à data da terceira reunião do Copom prevista para o ano que vem.
Já o economista Francisco Pessoa Faria, da LCA Consultores, afirma acreditar numa queda dos juros já na próxima reunião do Copom, em dezembro. “Não estamos vendo uma economia tão aquecida assim a ponto de causar uma pressão significativa nos preços”, diz.
O economista João Saboia, professor da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), diz que a atenção dada pelo BC ao efeito do crescimento da economia sobre a inflação não se justifica nas condições atuais. “Foi uma grande decepção essa parada no corte da taxa de juros, pela simples razão de que é uma taxa elevada. O custo é muito grande. Essa mexida na Selic para segurar o consumo [é uma tese] muito distante da realidade. A inflação está sob controle, dentro da meta.”
Gastos do governo
Um dos fatores que impulsionam o crescimento da economia que preocupa o BC é o aumento dos gastos do governo, especialmente no pagamento de benefícios sociais.
Segundo a ata do Copom, além da expansão do crédito e da renda, o nível de atividade também responde aos “efeitos da expansão das transferências governamentais e de outros impulsos fiscais esperados para os próximos meses deste ano e para 2008”. Isso faz com que “os nítidos sinais de demanda aquecida” chamem a atenção para os perigos de uma aceleração da inflação.