Gasto de turista no exterior é o mais alto já registrado

Folha de São Paulo Editoria: Dinheiro  Página: B-3


Os gastos de turistas brasileiros no exterior bateram recorde no mês passado, segundo dados do Banco Central.

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Os gastos de turistas brasileiros no exterior bateram recorde no mês passado, segundo dados do Banco Central. Impulsionadas pelo real valorizado, essas despesas somaram US$ 915 milhões em outubro, o maior valor já registrado em um único mês desde 1947, quando começa a série estatística do BC.


Nos primeiros dez meses do ano, esse item já respondeu pela saída de US$ 6,619 bilhões do país, crescimento de 38,8% em relação a 2006.


Esses números indicam que a valorização do real já começa a ter impactos mais significativos nas contas externas do Brasil. Além dos maiores gastos com viagens, também se nota um aumento das importações e nas remessas de lucros ao exterior, o que levou o país a registrar o segundo déficit externo deste ano.


No mês passado, o saldo da conta de transações correntes -que contabiliza a negociação de bens e serviços com outros países- ficou negativo em US$ 42 milhões. O déficit foi pequeno, mas ajudou a reduzir o superávit acumulado no ano para US$ 5,597 bilhões, metade do valor apurado no mesmo período de 2006.


As remessas de lucros para o exterior somaram US$ 2,201 bilhões só no mês passado. No ano, o saldo acumulado é de US$ 15,984 bilhões, 27,8% a mais do que no ano passado.


“Essas remessas são o principal componente negativo do desempenho das transações correntes”, diz o chefe do Departamento Econômico do Banco Central, Altamir Lopes.


As importações, por sua vez, chegaram a US$ 12,330 bilhões no mês passado, valor 41% maior do que o registrado em outubro de 2006. No mesmo período, as exportações cresceram 24,3%, atingindo US$ 15,769 bilhões.


Apesar desse aumento na saída de dólares para o exterior, o economista Caio Megale, sócio da Mauá Investimentos, identifica pontos positivos nos números apresentados pelo BC. “O aumento nas importações é um sinal de que o Brasil está fazendo uso da boa tecnologia desenvolvida por outros países. E as remessas de lucros estão aumentando porque as empresas multinacionais, assim como as outras que atuam no Brasil, estão lucrando mais.”


A redução no superávit das contas externas, por sua vez, não é vista como preocupante por Megale, pois o país já aproveitou os resultados positivos dos últimos anos para reforçar suas reservas em moeda estrangeira e, assim, reduzir a vulnerabilidade da economia a choques externos. “É como o conto da cigarra e da formiga. O Brasil fez como a formiga e aproveitou a situação favorável para fazer caixa”, compara. As reservas internacionais do país estão hoje no nível recorde de US$ 177 bilhões.


Para Fabio Kanczuk, professor de economia da USP, a redução no saldo em transações correntes ocorrida neste ano marca o início da reversão do quadro observado desde 2003, quando o país começou a acumular superávit nas contas externas. Entre 1947 e 2002, o Brasil só havia registrado saldo positivo nesse indicador em sete ocasiões.


Mas Kanczuk diz que ainda é cedo para dizer qual será o impacto desse movimento na economia, já que muitos outros fatores podem alterar esse quadro, como o nível de crescimento da economia mundial e o comportamento dos preços das commodities -produtos primários, como a soja e o minério de ferro- no mercado internacional. “Ainda tem muito jogo para acontecer”, afirma.