Economistas divergem sobre impactos da crise financeira no País

Em audiência nesta quinta-feira na Câmara para discutir as medidas do governo brasileiro para enfrentar a crise financeira internacional, especialistas do Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas (Ipea), órgão técnico do governo, disseram que a crise não interrompeu o ciclo de crescimento do País.

Em audiência nesta quinta-feira na Câmara para discutir as medidas do governo brasileiro para enfrentar a crise financeira internacional, especialistas do Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas (Ipea), órgão técnico do governo, disseram que a crise não interrompeu o ciclo de crescimento do País. Já o economista-chefe da corretora Capital Markets, Tony Volpon, acredita que serão necessárias reformas mais profundas para enfrentar a situação e que o crescimento será bem menor.


O diretor-substituto de Estudos Macroeconômicos do Ipea, Renault Michel Barreto e Silva, disse que o Brasil vive desde 2006 um ciclo virtuoso de crescimento econômico sustentável. O nível de investimentos em relação ao PIB, destacou, é de quase 20%, próximo ao índice verificado durante o período do milagre econômico, que era de 25%. O economista ressaltou que isso teve impacto positivo no mercado de trabalho e conseqüentemente no consumo.


Para manter esse ciclo de crescimento, Barreto apontou três medidas: garantir e acelerar a liberação dos recursos do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), manter e ampliar os programas sociais do governo e manter a política de recuperação do poder de compra do salário mínimo.


“O papel do governo é proativo para assegurar que, nessa lacuna de incerteza e instabilidade aberta pela crise financeira, os efeitos da crise sejam minimizados e garantir que a economia real continue com o vigor dos últimos anos. É claro que em alguma medida ela será impactada, mas esperamos que o impacto seja mínimo e o ciclo virtuoso seja preservado”, afirmou Barreto.


Taxa de juros

O economista-chefe da corretora Capital Markets, Tony Volpon, prevê que o Brasil voltará a ter taxas de crescimento medíocres de até 2% ao ano por conta da crise. Hoje, ela está em 4,2%.


Volpon defendeu reformas estruturais que garantam o crescimento sustentável da economia. “Por que a economia não cresce fora desses momentos de extrema abundância de capital e alta de preço de commodities? Eu acho que por uma razão muito clássica: a chamada altíssima taxa de juros. Acredito que a economia brasileira não cresce porque existe alguma coisa sobre essa economia que gera taxa de juros reais que não vemos em nenhum outro lugar do mundo”, criticou.


Volpon ressaltou ainda que mesmo nos últimos cinco anos, em que houve forte crescimento e expansão dos investimentos, as taxas de juros reais no Brasil, embora tenham caído em certos momentos, não chegaram perto das que vigoram em outras economias emergentes ou desenvolvidas. “Isso é fruto de uma variedade de fatores estruturais que fazem essa taxa ser tão alta”, acrescentou.


Dados do governo

O líder do PPS, deputado Fernando Coruja (SC), autor do requerimento para a realização da audiência nas Comissões de Finanças e Tributação; e de Desenvolvimento Econômico, Indústria e Comércio, questionou os números apresentados pelo governo, que estão atualizados até outubro deste ano.

Ele acredita que os efeitos mais fortes da crise estão sendo sentidos agora em novembro.


O presidente da Comissão de Finanças, deputado Pedro Eugênio (PT-PE), disse, no entanto, que o governo não pode inventar dados negativos e que os efeitos da crise ainda não foram suficientes para afetar o crescimento da economia.


Agência Câmara, 11 de dezembro de 2008.