Economista defende a adoção de duas taxas de juros para estimular o crédito para o setor privado

A adoção de duas taxas de juros no País pode ser uma ferramenta para a redução dos juros brasileiros, um dos mais altos do mundo, e a estimulação do crédito para o setor privado. A opinião é do chefe da Divisão Econômica da CNC, Carlos Thadeu de Freitas Gomes, que, em artigo publicado no Jornal do Brasil de 18 de janeiro, defende a liberação da Selic Over, utilizada como referência para a movimentação das reservas do Banco Central e regulada pela autoridade monetária, que, podendo flutuar livremente, tenderia a cair, contribuindo para a oferta de crédito.

A adoção de duas taxas de juros no País pode ser uma ferramenta para a redução dos juros brasileiros, um dos mais altos do mundo, e a estimulação do crédito para o setor privado. A opinião é do chefe da Divisão Econômica da CNC, Carlos Thadeu de Freitas Gomes, que, em artigo publicado no Jornal do Brasil de 18 de janeiro, defende a liberação da Selic Over, utilizada como referência para a movimentação das reservas do Banco Central e regulada pela autoridade monetária, que, podendo flutuar livremente, tenderia a cair, contribuindo para a oferta de crédito. “Se devidamente incentivado, o crédito minimizaria os efeitos da contração econômica, restaurando a confiança dos vários agentes econômicos”, afirma Thadeu.


Veja também, aqui, a opinião do consultor de Economia da CNC, Ernane Galvêas, sobre a taxa Selic.


Estimulando o crédito


Carlos Thadeu de Freitas Gomes


Os resultados negativos da produção industrial brasileira de novembro de 2008 e os indicadores antecedentes igualmente desfavoráveis em dezembro reduziram as projeções para o crescimento econômico em 2009. Apesar de abandonar a tese do descolamento, não se pode, no entanto, querer adotar o mesmo remédio que os Estados Unidos, um grande estímulo fiscal e monetário, pois a conjuntura para a economia brasileira é diferente. O cenário interno mais provável é de uma contração curta e uma recuperação logo em seguida, devido à atual queda da taxa real esperada de juros, e algumas medidas anticíclicas pontuais já tomadas. O crédito, se devidamente incentivado, minimizaria os efeitos da contração econômica, restaurando a confiança dos agentes econômicos.


Espera-se que a taxa Selic apresente uma trajetória de queda ao longo do ano. Contudo, as taxas ativas (cobradas pelos bancos) não devem cair na mesma proporção, já que os spreads devem permanecer elevados. A redução dos spreads bancários depende de uma política mais ativa de liberação dos compulsórios, da diminuição da cunha tributária que recai sobre a intermediação financeira e de alterações em algumas práticas operacionais do Banco Central.

Desde meados de 2007, os mercados financeiros internacionais estão pedalando a crise com recursos dos seus bancos centrais. A queda das taxas de juros deu lugar à expansão dos balanços dos bancos centrais como principal instrumento de política monetária. Recentemente, o presidente do banco central americano declarou que o objetivo principal dessa política seria o “destravamento” do crédito, diferentemente da política de liquidez adotada pelo Banco Central Japonês durante o período de deflação.  No caso do Japão, a compra de títulos dos bancos serviu apenas como um mecanismo para os aumentos das reservas dos bancos, diante da impossibilidade de reduzir os juros nominais para abaixo de zero. Ao baixar os juros para praticamente zero, o Federal Reserve reconheceu a atual disfunção dos mecanismos de transmissão de política monetária tradicionais.


O banco central americano está inovando ao comprar títulos de crédito do setor privado como forma de diminuir o spread do capital emprestado para as empresas. As taxas de juros que refletem o movimento das reservas bancárias intituladas taxas overnight, recuaram bastante nos últimos meses em todos os países que injetaram liquidez no sistema ou deram garantias para suas operações interbancárias. Até recentemente, antes do BC americano fixar um intervalo entre 0% e 0,25% para a taxa de juros básica, as taxas over diárias estavam sempre abaixo daquelas fixadas pelo comitê de política monetária. O mesmo aconteceu dentro do âmbito do Euro e da Libra, cujas taxas de juros diárias tem sido inferiores aos patamares definidos pela gestão de política monetária sob o modelo de metas de inflação.


No Brasil, a taxa Selic meta é fixada pelo Copom em suas reuniões e a Selic over é determinada pelos movimentos nas reservas bancárias diárias. Como o Banco Central é o principal emissor de reservas, a taxa Over é administrada para que fique próxima da meta fixada pelo Copom. Dada a liquidez atual do mercado de reservas bancárias, a taxa Selic Over poderia ser bastante inferior aos níveis atuais, caso fosse menos monitorada pelo BC para ficar sempre próxima da meta. Como conseqüência, as captações de recursos diárias pelo BC teriam remuneração inferior à praticada atualmente. As instituições financeiras credoras nos mercados monetários receberiam menor remuneração incidente sobre suas carteiras de títulos, e o custo de oportunidade dos bancos para o repasse de seu excesso de reservas seria reduzido por essa medida operacional. Logo, os bancos se tornariam mais predispostos a aumentar suas operações de crédito.


A fixação da taxa Selic básica continuaria sendo feita normalmente dentro do regime de metas de inflação como instrumento para administrar as expectativas dos agentes econômicos. A sinalização da taxa Selic Over refletiria unicamente a abundância de liquidez, ou seja, a realidade atual dos mercados monetários, sem interferir na âncora nominal do regime de metas de inflação. Hoje o principal desafio dos bancos centrais é o destravamento do crédito, cujo sucesso depende, além da retomada da confiança, de medidas não convencionais de atuação monetária.