Mantida meta de inflação em 4,5%

Jornal do Commercio  Editoria: Economia   Página: A-2


O Conselho Monetário Nacional (CMN) fixou ontem a meta de inflação para 2009 em 4,5%, mantendo a margem de tolerância de dois pontos percentuais para cima ou para baixo. Mas, surpreendentemente, autorizou o Banco Central (BC) a perseguir um objetivo de inflação de 4% naquele ano, adotando assim uma espécie de “meta implícita”.

Jornal do Commercio  Editoria: Economia   Página: A-2


O Conselho Monetário Nacional (CMN) fixou ontem a meta de inflação para 2009 em 4,5%, mantendo a margem de tolerância de dois pontos percentuais para cima ou para baixo. Mas, surpreendentemente, autorizou o Banco Central (BC) a perseguir um objetivo de inflação de 4% naquele ano, adotando assim uma espécie de “meta implícita”. Na prática, a reunião do CMN de ontem, mesmo não abandonando a fixação legal do “centro matemático” de uma meta de inflação, autorizou o Banco Central a trabalhar com o intervalo para a inflação, que vai de 2,5% a 6,5%.


A falta de clareza na explicação dessa mudança causou confusão no mercado e dificultou o entendimento sobre os reais objetivos da política monetária do governo daqui para frente.


Mesmo sem mudar a lei da meta da inflação, a decisão do CMN mudou a forma como o sistema é atualmente usado no País. Isso porque, até agora, o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, dizia que o BC mirava o centro da meta ao definir sua política monetária. Todas as atas do Comitê de Política Monetária (Copom), o órgão que decide a taxa de juro, citam, como objetivo final, a obtenção da meta de inflação fixada pelo CMN.


A decisão do Conselho Monetário atende ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que disse que não aceitaria mais sacrifícios no combate à inflação, numa clara indicação de que queria manter a meta de inflação em 4,5%, que é a mesma válida para este ano e para 2008.


Divergências


Tanto o presidente Henrique Meirelles, quanto o ministro do Planejamento, Paulo Bernardo, eram favoráveis à redução da meta para 4%. Apenas o ministro da Fazenda, Guido Mantega, defendia os 4,5%. Numa votação, portanto, ele seria derrotado no CMN, com o placar de 2 a 1. Mas, depois da entrevista de Lula, o CMN terminou aprovando a meta de 4,5%, com a ressalva de que o BC terá de cumpri-la.


Mantega tentou contornar as dúvidas causadas pela decisão do CMN com o argumento de que o governo preferiu deixar a meta da inflação em 4,5% para ter “graus de liberdade” para enfrentar “eventuais choques de oferta” nos próximos anos. “Não teremos duas metas, mas apenas uma, que é de 4,5%. Mas é possível e desejável que a inflação fique abaixo do centro da meta”, afirmou. “O BC deve ter como objetivo perseguir a menor inflação possível”, acrescentou.


Foi lembrado ao ministro, durante a entrevista, que a margem de flutuação da inflação, de dois pontos percentuais para baixo da meta e para acima, tem por objetivo justamente o de acomodar eventuais choques de oferta. Mantega não respondeu. Meirelles chegou a dizer que o objetivo do BC será o de perseguir uma inflação “em torno de 4%”, que está, segundo disse, de acordo com a estimativa do mercado para 2009 e “em linha com o objetivo de longo prazo (do Conselho Monetário)”.


O presidente do BC foi acusado recentemente por alguns críticos, entre eles o senador petista Aloizio Mercadante (PT-SP), de trabalhar com uma “meta oculta” de inflação, inferior àquela definida pelo CMN. Ontem, Meirelles disse: “Na realidade, nós estamos trabalhando com um intervalo de 2,5% a 6,5%”. Ele chegou a citar países como a Nova Zelândia e a Austrália, que também trabalham com um intervalo, sem fixar uma meta central.


Repercussão


A preocupação de Meirelles e Mantega ontem foi a de evitar que a decisão de fixar uma meta de 4,5% para 2009 possa repercutir negativamente e dar a impressão ao mercado de que o governo aceita uma inflação maior. “Não há uma orientação para que a inflação venha a convergir para 4,5%”, advertiu Mantega. “A decisão de hoje (ontem) não representa nenhuma mudança na política monetária”, garantiu Meirelles.


Na defesa da tese de que a inflação do País deve ficar abaixo da meta, o presidente do BC divulgou informações segundo as quais os países passaram 55% do tempo, desde a introdução do sistema de metas, abaixo do centro e apenas 43% acima. “Existe uma tendência consagrada de que a maior parte do tempo, a inflação se localiza abaixo do centro da meta”, disse.


Bernardo: houve “pequeno tilt” na comunicação


O ministro do Planejamento, Paulo Bernardo, atribuiu a repercussão negativa no mercado sobre a fixação da meta de inflação para 2009 em 4,5% a um “pequeno tilt (falha) na comunicação”.


“Acho que nós não conseguimos nos entender. Eu achei que estava bem claro. Agora, o mercado leu as notícias de vocês (jornalistas). Não sei como vocês transmitiram”, disse o ministro, referindo-se à veiculação das informações ao longo da tarde de ontem. “Acho que vai ficar perfeitamente claro nos próximos dias”, afirmou.


Para Paulo Bernardo, o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, foi muito prudente e parcimonioso na sua explicação. “O BC explicou bem”, defendeu. “Nós temos uma meta de 4,5% para 2009. Entretanto, a expectativa do mercado é de uma inflação de 3,7% para este ano e de 4% para 2008. Não é de se supor que o BC vai trabalhar para aumentar esta inflação que está prevista pelo mercado e que nós achamos que está em linha com que o BC está fazendo”, completou Bernardo.


Ao ser questionado se a meta de inflação foi definida em 4,5% em função das declarações do presidente Lula, que na semana passada defendeu a manutenção da meta, o ministro negou. “Deixar uma margem para o Banco Central atuar é normal”, disse. Paulo Bernardo devolveu a crítica do mercado à medida e afirmou “que o mercado é esquizofrênico mesmo”.