Serviços avançam, mas exigem ação

Gazeta Mercantil   Editoria: Editorial  Página: A-2


O maior peso do setor de serviços na formação do Produto Interno Bruto (PIB) já é, há décadas, o padrão dos países economicamente mais avançados. Também no Brasil os serviços tinham mais peso (54,09%) que a indústria (37,91%) e a agricultura e atividade extrativa mineral (8%), pela avaliação que vinha sendo adotada pelo IBGE para avaliação das contas nacionais em vigor até 2005.

Gazeta Mercantil   Editoria: Editorial  Página: A-2


O maior peso do setor de serviços na formação do Produto Interno Bruto (PIB) já é, há décadas, o padrão dos países economicamente mais avançados. Também no Brasil os serviços tinham mais peso (54,09%) que a indústria (37,91%) e a agricultura e atividade extrativa mineral (8%), pela avaliação que vinha sendo adotada pelo IBGE para avaliação das contas nacionais em vigor até 2005.


O que causou espécie neste ano, quando o IBGE passou a adotar uma nova metodologia para o cálculo das contas nacionais, de acordo com o padrão recomendado pela Organização das Nações Unidas, foi um sensível avanço da participação dos serviços no PIB, que, em 2006, chegou a 63,95%, com um recuo da indústria para 30,90% e da agricultura e atividade extrativa para 5,15%.


Como já foi notado, a revisão das contas nacionais não mudou a realidade, apenas passou a medir com mais precisão a atividade econômica. Com a abertura comercial a partir da década de 1990 e, mais recentemente, com a valorização do real, que resultou em perda de mercado pela indústria nacional, o peso do setor industrial na economia naturalmente regrediu, embora isso não signifique necessariamente que ele tenha deixado de avançar.


De outra parte, o setor de serviços, que praticamente não é afetado pela comercialização externa, teve mais impulso, notadamente com o progressivo aumento do crédito. O fenômeno não é de hoje. Segundo dados da Federação do Comércio do Estado de São Paulo (Fecomércio-SP), o setor de serviços teve um crescimento de 42% entre 1999 e 2002, período em que o comércio avançou 31%. Enquanto isso, a indústria teve uma expansão de 18%.

Não chega a surpreender, portanto, que os últimos números publicados pelo Banco Central (BC) relativos à distribuição por setor dos ingressos de investimentos estrangeiros diretos (IED) revelem também um franco predomínio do setor de serviços, que absorveu 53,9% do capital de risco ingressado no País no período de janeiro a maio deste ano.


Vale notar que 15,5% do total de IED foi para a intermediação financeira. Isso se explica pelo interesse crescente dos conglomerados estrangeiros pelo mercado brasileiro, comprando participações em bancos ou em outras instituições. Esse interesse não se explica apenas pelo diferencial entre as taxas de juros externas e internas, que tem atraído vultosas aplicações de curto prazo. O mercado de capitais brasileiro tem apresentado também uma notável evolução, com a abertura do capital de um número crescente e bastante expressivo de empresas e a valorização dos papéis brasileiros, proporcionando ganhos recordes aos investidores.


Uma parcela também considerável dos IED (13,8%) tem ido para o comércio, como se constata pelo apetite que investidores estrangeiros têm mostrado por redes de supermercados, shopping centers, hotéis e empreendimentos ligados à tecnologia da informação (TI).


Um caso que merece uma atenção especial é o do turismo, que o Brasil, certamente, poderia promover mais eficientemente. É lógico que a valorização do real vem possibilitando a um maior número de brasileiros viajar para o exterior. E essa realidade é bem expressa pelo déficit no item Viagens Internacionais do balanço de pagamentos, que de janeiro a maio apresentou um déficit de US$ 707 milhões, 159% superior ao do mesmo período de 2006 (US$ 273 milhões).

Mas a cotação do dólar não explica tudo. Enquanto as receitas com turismo permanecem estacionárias, as despesas crescem velozmente.


Com os Jogos Pan-Americanos e com a projeção do Cristo Redentor entre as Sete Novas Maravilhas do Mundo, além demuitas outras atrações turísticas que o Brasil oferece, espera-se que as receitas possam elevar-se substancialmente. Mas, para isso, é preciso acabar com a crise aérea que atormenta os brasileiros e afugenta os turistas e dar aos que visitam o Brasil melhores condições de segurança física. Isso não é impossível, se houver coragem e determinação por parte do governo para enfrentar esses humilhantes problemas.