A era do não-emprego

Jornal do Commercio  Editoria: Carreiras  Página: B-16


Enquanto muitos se queixam da falta de emprego no Brasil, alguns buscam outro modelo de trabalho, em que não faltam oportunidades. Tornam-se cada vez mais comuns vínculos temporários e parciais entre profissionais e empresas, em que não se tem uma função ou descrição de cargo clara ou permanente. Para se adequar a essa nova realidade, é preciso que o profissional desenvolva suas habilidades de marketing pessoal e busque aprimoramento técnico ainda mais rigoroso.

Jornal do Commercio  Editoria: Carreiras  Página: B-16


Enquanto muitos se queixam da falta de emprego no Brasil, alguns buscam outro modelo de trabalho, em que não faltam oportunidades. Tornam-se cada vez mais comuns vínculos temporários e parciais entre profissionais e empresas, em que não se tem uma função ou descrição de cargo clara ou permanente. Para se adequar a essa nova realidade, é preciso que o profissional desenvolva suas habilidades de marketing pessoal e busque aprimoramento técnico ainda mais rigoroso.


“As necessidades das empresas se tornaram dinâmicas demais para se manter alguns profissionais em seus quadros permanentes”, diz Dino Mocsányi, professor do curso “Capacitação e aperfeiçoamento de consultores” do Indec. Nos dias 24 e 25 de agosto, ele ministrará as aulas na instituição especializada em educação continuada. O consultor aponta ainda a informatização, a automação e a globalização como inibidoras das contratações.


A maior flexibilidade de horário e escolha de trabalhos são vantagens desse modelo de atuação. Por outro lado, a instabilidade inerente a ele costuma intimidar muitos profissionais. “Nos acostumamos com ritmo de vida mensal. Quando se trabalha por conta própria, é preciso pensar os rendimentos em âmbito anual, pois haverá meses sem ganho algum, e outros com ganhos acima da média”, analisa Mocsányi.


Atitude Pró-Ativa


O consultor destaca a importância de se desenvolver técnicas de venda do seu próprio trabalho, pois o mercado exigirá desse profissional atitude mais pró-ativa do que àqueles subordinados a chefes. De acordo com Mocsányi, é comum a alternância entre os dois modelos de ocupação, evidenciado por sua própria experiência. Ele costuma atuar prestando serviços em consultoria, mas por vezes assume cargos executivos em grandes empresas.


“Alterno de acordo com as oportunidades, o que considero enriquecedor para minha atuação em ambas as esferas. Quando atuo como consultor, tenho mais clareza das necessidades das empresas, e, quando atuo nas corporações, sou capaz de compreender melhor o trabalho dos consultores que prestam serviços a elas”, afirma.


Já Claudio Motta parece ter feito uma decisão definitiva. Abriu uma franquia da Expense Reduction Analysts (E.R.A.), consultoria mundial especializada em redução de custos, e deixou os empregos corporativos. Por melhor que fossem os cargos, salários e benefícios, ele buscava oportunidade mais desafiadora, com mais liberdade para criar. Depois de alguns anos amadurecendo a idéia, teve coragem para assumir o risco.


Falsa Segurança


“Existe falsa segurança a respeito dos trabalhos assalariados. Hoje, não existe emprego seguro, exceto no funcionalismo público”, analisa Motta. No entanto, ele não recomenda a mudança para um negócio próprio caso a pessoa não disponha de boa reserva financeira, principalmente para os primeiros meses após o lançamento. De acordo com Motta, foram suas economias que permitiram uma desenvoltura maior em sua atuação, pois podia trabalhar com mais tranqüilidade.


O fato de ser dono do seu tempo e do seu trabalho é o grande atrativo desse modelo de atuação, na opinião do consultor. Embora trabalhe tanto quanto o fazia em empresas como Telemar, Rio de Janeiro Refrescos, Intelig e Alcatel, fora do regime CLT ganhou flexibilidade maior de horários e de escolha dos projetos que gostaria de fazer. No entanto, Motta alerta: é preciso ter cuidado para não se tornar refém de sua própria liberdade. “Existe perfil de pessoas que sabem lidar com essa liberdade”, afirma.


Cristina Luna, advogada, concorda com o consultor. Ela acredita que esse grupo de pessoas precisa ser mais ousado. Enquanto na empresa, os projetos surgem na mesa dos profissionais, no trabalho autônomo é preciso prospectar clientes a todo momento. “Sem contratos, o trabalho torna-se alvo de avaliações o tempo todo. Por isso, é preciso ser muito competente naquilo que faz. Provando ser bom profissional, surgem oportunidades de se ganhar ainda mais do que em regime CLT”, afirma Cristina.


Diversificação


Hoje, a advogada dá aulas de direito constitucional para concursos, em diversas instituições. No entanto, destaca já ter passado por dificuldades, ao ficar três meses sem nenhuma proposta de trabalho. Quando trabalhava apenas para um curso e ele faliu, aprendeu a importância de diversificar as empresas para as quais prestaria serviço. Atualmente, dá aulas em cinco cursos, dois em São Paulo e um no Rio de Janeiro, além de lecionar, em alguns períodos do ano, em instituições de ensino localizadas no Amazonas, em Rondônia, no Acre, no Distrito Federal, no Espírito Santo e em Minas Gerais.


Em direito, Cristina já começou sua atuação como prestadora de serviços, o que é bastante comum na área. De acordo com o consultor Mocsányi, algumas profissões já estão na “era do não-emprego” há bastante tempo, como é o caso de médicos, advogados e dentistas. Também nesse caso está a profissão de produtores audiovisuais. Cecília Bertoche é assistente de produção, trabalhando com filmes e comerciais publicitários. Ainda na faculdade, percebeu que sua carreira seria marcada por trabalhos temporários.


Produtoras não costumam contratar equipes, pois elas mesmas trabalham com projetos bastante diferentes uns dos outros e também temporários. Cecília aponta a necessidade de se tornar pessoa jurídica para conseguir um cliente como um dos entraves desse modelo de atuação. Para não ser obrigada a abrir uma empresa, ela optou por filiar-se à Associação Brasileira de Prestadores de Serviços Artísticos (Prodarte), que lhe fornece as notas necessárias.


A insegurança ao fim de cada projeto também é apontada como desvantagem do trabalho fora da CLT. Cada longa-metragem em que atua leva de três a quatro meses para ficar pronto. Cecília já produziu clipes em apenas dois dias. No entanto, a remuneração é atrativo para ela. “À medida que for emendando um projeto no outro, terei remuneração muito boa”, avalia. Para isso, conhecer os profissionais da área é fundamental. Embora não haja equipe concreta instituída, ela costuma se repetir a cada novo projeto.