Valor Econômico Editoria: Finanças Página: C-1
Um amplo estudo do Banco Central mostra que a inadimplência é o principal fator por trás dos altos juros bancários vigentes no país. O lucro das instituições financeiras vem em seguida, mas seu peso diminuiu um pouco em 2006.
Os cálculos do BC indicam que, nas operações com juros prefixados, a inadimplência respondeu por 43,4% do spread bancário, que é a diferença entre os custos de captação dos bancos e as taxas cobradas nos empréstimos bancários.
Valor Econômico Editoria: Finanças Página: C-1
Um amplo estudo do Banco Central mostra que a inadimplência é o principal fator por trás dos altos juros bancários vigentes no país. O lucro das instituições financeiras vem em seguida, mas seu peso diminuiu um pouco em 2006.
Os cálculos do BC indicam que, nas operações com juros prefixados, a inadimplência respondeu por 43,4% do spread bancário, que é a diferença entre os custos de captação dos bancos e as taxas cobradas nos empréstimos bancários. Um ano antes, em 2005, a inadimplência respondia por 35,9%. Em cinco anos, a partir de 2001, o peso da inadimplência subiu de 30,7% param 43,4% do spread.
Em dezembro de 2006, o spread médio das operações de crédito prefixado era de 34,7 pontos percentuais (pp), queda de 1,7 pp em relação aos valores observados em dezembro de 2005. Os bancos captaram recursos dos depositantes pagando em média 12,6% ao ano e emprestaram o dinheiro cobrando juros médios de 47,3% ao ano.
Esse é um dos spreads mais elevados do mundo e, desde 1999, o BC vem divulgando relatórios anuais que investigam porque o crédito bancário é tão caro no país. Um dos tópicos desse relatório procura medir qual é o peso de vários fatores na determinação do spread.
O estudo divulgado ontem, com dados sobre 2006, mostra que o lucro dos bancos continua sendo o segundo fator mais importante para explicar os spreads, mas perdeu algum peso. O BC não calcula diretamente o lucro dos bancos. Na verdade, primeiro identifica os fatores mais visíveis que explicam o spread. O que não tem explicação é o chamado resíduo, que, presume-se, é formado sobretudo pelo lucro dos bancos.
Por esse conceito, o lucro dos bancos, que respondia em 2005 por 24,3% do spread, passou a representar 19%. Os custos administrativos dos bancos também perderam algum peso, passando de 17,2% para 16,9%.
O compulsório incidente sobre depósitos continua a ter responsabilidade pequena no spread, comparando com os outros fatores acima. O compulsório sobre depósitos à vista explicou 4,9% do spread em 2006, ante 5,1% em 2005. Os bancos são obrigados a recolher 45% dos depósitos à vista no BC, sem receber remuneração, e mais 8%, remunerados pela taxa Selic.
No seu relatório, o BC atribui o crescimento do peso da inadimplência no spread a uma relativa deterioração da carteira de crédito dos bancos em 2006. Os empréstimos com atrasos superiores a noventa dias chegaram a 5% da carteira dos bancos, em comparação a 4,2% observados em 2005. No caso de pessoas físicas, aumentou de 6,7% para 7,6%; para empresas, de 2% para 2,7%.
O custo dos compulsórios teve ligeira queda porque, em alguns casos, os bancos chegaram a ganhar algum dinheiro nessas operações. O custo de captação dos bancos nos depósitos a prazo caiu mais rapidamente do que a Selic, fazendo com que os bancos saíssem ganhando nos recolhimentos remunerados ao BC.
O papel central da inadimplência, na visão do BC, reforça a necessidade de reformas microeconômicas que, de um lado, permitam aos bancos identificarem os bons pagadores e, de outro, recuperarem os valores emprestados quando o devedor não honra com seus compromissos.
Na agenda do BC, está a ampliação do alcance da central de risco de crédito, um enorme banco de dados com empréstimos bancários, que hoje inclui apenas operações a partir de R$ 5 mil – a intenção é, ao longo do tempo, chegar a R$ 1 mil. O Congresso analisa projeto enviado pelo governo que autoriza a criação dos cadastros positivos, bancos de dados com informações dos bons pagadores. Hoje, existem apenas cadastros negativos, dados dos maus pagadores.
No caso dos lucros do bancos, a visão do BC é que eles não se devem à concentração no setor ocorrida nos últimos anos, mas ao fato de que é difícil dos clientes trocarem de bancos. No ano passado, o governo criou a conta salário, numa tentativa de dar maior mobilidade aos clientes. A nova regra, porém, vai entrar em vigor aos poucos, até 2011.