Copom não fala mais em ‘pausa’ e deve congelar Selic por longo tempo

Valor Econômico  Editoria: Finanças  Página: C-2


O Comitê de Política Monetária do Banco Central (Copom) decidiu, ontem, por unanimidade, manter a meta de Taxa Selic em 11,25% ao ano. A decisão correspondeu às expectativas do mercado, que não espera para tão cedo uma retomada da trajetória de cortes na taxa básica da economia. 


O processo de queda, que já durava dois anos, tinha sido interrompido na reunião de outubro, quando o Copom decidiu manter a taxa, após dezoito reduções seguidas. Só em 2007, foram seis cortes, o último em setembro.

Valor Econômico  Editoria: Finanças  Página: C-2


O Comitê de Política Monetária do Banco Central (Copom) decidiu, ontem, por unanimidade, manter a meta de Taxa Selic em 11,25% ao ano. A decisão correspondeu às expectativas do mercado, que não espera para tão cedo uma retomada da trajetória de cortes na taxa básica da economia. 


O processo de queda, que já durava dois anos, tinha sido interrompido na reunião de outubro, quando o Copom decidiu manter a taxa, após dezoito reduções seguidas. Só em 2007, foram seis cortes, o último em setembro. Desde então, os indicadores sobre a atividade econômica, que continua crescente, e expectativa de inflação levaram o BC a optar por uma postura de cautela. 


Com a decisão de ontem, a meta Selic fecha 2007 exatos dois pontos percentuais abaixo do que era no final de 2006 (13,25% ao ano). Os indicadores apurados pelo BC sobre crédito indicam que essa queda se refletiu nas taxas de juros ao tomador final, tanto para empresas quanto para pessoas físicas. 


Medida em relação às operações com recursos de livre aplicação dos bancos, a taxa média para pessoas físicas já caiu 6,3 pontos em comparação a dezembro de 2006, situando-se em 45,8% ao ano em outubro desse ano. Apesar de terem subido desde agosto último, os juros para as empresas também caíram em relação ao que eram no final do ano passado e ficaram, em média, 23,4% ao ano. 


Uma parcela da queda da taxa final foi consequência da redução de spreads bancários, que caíram, em média, 5,1 pontos percentuais para pessoas físicas e 0,8 ponto percentual para empresas nesse período. Mas, por influência da redução da Selic, da qual são mais próximas, as taxas de captação também se reduziram, em ambos os segmentos, ajudando a derrubar as taxas finais ao tomador. 


Os números do BC indicam que o processo de redução dos juros básicos e seus reflexos nas demais taxas da economia também provocaram aumento de demanda por crédito, o que foi atendido pelos bancos. Em dez meses, o estoque das operações de crédito do sistema financeiro saltou de R$ 732,59 bilhões para R$ 880,8 bilhões, indo de 30,8% para 34% do Produto Interno Bruto do país (o BC usa o PIB nominal valorizado, ou seja, medido a preços do último mês de referência, no caso outubro). 


Para 2008, as expectativas do mercado indicam retomada do processo de redução da Selic.


Mas, se de fato ocorrerem, os cortes serão mais tímidos, de acordo com as mesmas expectativas. A mediana das projeções de mercado apuradas pelo BC indicam que, no final de 2008, a meta de Selic estará em 10,25% ao ano. As expectativas de inflação reforçam a possibilidade de retomada das reduções. Pela mediana das projeções, a inflação do IPCA será de 4,10% em 2008, superior à de 2007, que deve ficar em 3,96%, mas ainda abaixo dos 4,5% fixados como meta e referência para as decisões do BC sobre juros. 


Na visão do economista-chefe da Gradual Corretora, Pedro Paulo B. da Silveira, os próximos passos da política monetária dependerão da prorrogação ou não da CPMF. Se o governo não conseguir dilatar a vigência do imposto, ficará caracterizado um relaxamento fiscal incompatível com os esforços monetaristas do BC. Enquanto o Copom atua para apertar a política monetária, o fim do imposto tem efeito fiscal expansionista. Ou seja, haverá mais dinheiro em circulação, com impactos não desprezíveis sobre a inflação. Nessa hipótese, e se o governo não conseguir encontrar substitutos à altura da CPMF, não se pode descartar a possibilidade de o Copom até vir a subir a Selic. Mas não é esse o cenário mais provável com o qual Silveira trabalha. Para ele, a CPMF será aprovada e irá permitir a concessão do grau de investimento ao Brasil. O dólar retomará a rota de baixa e o BC poderá pensar em reduzir a Selic já no primeiro trimestre de 2008. 


Ao retirar a palavra “pausa” do comunicado expedido após a reunião de ontem, o BC sinaliza que pode estender por longo período a estabilidade da Selic em 11,25%. Para o economista-chefe da Concórdia Corretora, Elson Teles, a ata da reunião de ontem deve tornar clara a percepção de que houve uma piora no balanço de riscos para a inflação, tanto associada ao cenário externo quanto doméstico. Isso trará a sinalização de que a Selic poderá ficar estável em 11,25% por mais tempo do que se imaginava. Para o consultor Miguel Daoud, da Global Financial Advisor, a tendência é de o juro não sair do lugar enquanto o governo não conseguir gerenciar adequadamente os problemas fiscais e os decorrentes do crescimento. 


Gastos públicos com juros ficam estáveis


O Iedi mostra que de janeiro a outubro deste ano o governo pagou R$ 135,2 bilhões em juros da dívida, mais do que os R$ 133,5 bilhões do mesmo período em 2005 e os R$ 134,9 bilhões em 2006. “Os números mostram que nada foi capturado pelo setor público dessa redução da taxa básica”, dizem os especialistas do Iedi. “A variação entre esses valores é claramente muito pequena”, comentam eles. 


Se forem comparadas as médias mensais, teremos R$ 13,5 bilhões para 2007 no período de janeiro a outubro, na comparação com os R$ 13,3 bilhões do mesmo período em 2006 e os R$ 13,1 bilhões para 2005. Em 2004, quando a Selic aumentou de 16% em agosto para 19,75% em agosto de 2005, os gastos mensais com juros eram menores, de R$ 10,7 bilhões. “O custo da dívida elevou-se correspondentemente ao aumento nos juros básicos”, diz o estudo do Iedi, mas “do lado oposto, ou seja, quando os juros passaram a cair, não houve a mesma correspondência de redução do gasto com juros pelo setor público”. 


O Iedi não deixa de notar que, como proporção do Produto Interno Bruto (PIB), os gastos com juros caíram. Foram de 7,57% do PIB para de janeiro a outubro em 2005, 7,08% do PIB no ano seguinte e o último resultado é de cerca de 6,5%. “Foram a inflação e o crescimento econômico real que levaram a uma queda do percentual relativo a juros do setor público sobre o PIB”, diz o estudo. 


Para o Iedi, “dificilmente um devedor deixaria de usufruir em alguma parcela pelo menos de uma condição mais favorável quanto à taxa de juros”. Mas, o setor público brasileiro optou por promover durante dois anos uma intensa mudança na composição da dívida pública em títulos, na qual patrocinou uma expressiva redução dos títulos indexados à taxa Selic em favor dos títulos com taxas de juros prefixadas ou títulos indexados a índices de preços, que têm juros mais altos. Para o Iedi, “embora correta e oportuna, a política que busca diminuir o peso da parcela da dívida vinculada à taxa de juros básica foi promovida com velocidade além do necessário e do que é razoável, a ponto de neutralizar qualquer ganho financeiro por parte do devedor, o setor público”.